Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

O professor

Escrever para uma revista de música sempre foi um dos seus sonhos. Presenciar todo glamour e correria de uma redação musicalmente agitada seria estoneante. Ela vivia sempre com os fones de ouvido e quase todos os dias colocava seu iPod para carregar. O aparelho eletrônico andava pra cima e pra baixo com ela. Era praticamente um item essencial na sua bolsa, era quase parte do seu corpo. E podem apostar que quando era lançado um aparelho com maior capacidade lá estava ela comprando. Estava sempre antenada nas novidades do mundo da música. Sabia lançamentos de albuns e datas de show melhor que ninguém. Era tida em seu pequeno e restrito círculo de amizades como o 'guia do fim de semana'.
Outra paixão, era o cinema. Sabia de cor todos os filmes de seus diretores favoritos. Sua lista era bem eclética e clássica. Admirava ícones como Coppola, David Fincher e Tim Burton. Mas um dos seus preferidos era um iniciante, pouco conhecido na mídia geral. Seu nome era Marcos Silva. Seus vídeos eram totalmente cult, no sentido mais amplo da palavra. Era criativos e emotivos. Meio que à la Amélie Poulan. E outra coisa que atraía-a a ele era sua fisionomia.
Seu rosto era igual ao de um professor de geografia que ela teve no colégio. O que ela sentia por ele? Amor platônico. No sentido literal da expressão. Atração era dada, não pela beleza física dele, e sim pela inteligência e simplicidade. Não era amor carnal, não sonhava com véu e grinalda, nem com longos fins-de-semana. Sonhava com uma amizade duradoura e feliz. Onde compartilham experiências do ramo, afinal sua formação era em humanas também. Tinha certo apreço por este professor no colégio. Que hoje era somente, seu amigo. Mas, não era somente o professor de geografia. Tinha uma admiração gigantesca por seus professores. Afinal, queria estar lá. Seu sonho, quando descobriu o prazer de escrever, era continuar redigindo e ainda lecionar. Mais especificamente no ramo de humanas. Ela sabia aplicar a versatilidade da escrita e seus gostos musicais e cinematográficos na sala de aula.
Mas no momento, enquanto não terminasse sua faculdade, não poderia dar aulas. Seu tempo era restrito. Na redação da revista de gastronomia que trabalhava seus chefes a tomavam o tempo inteiro. A mandavam para as coberturas noturnas, para as reportagens de última hora e sempre lhe davam textos para fazer a correção ortográfica e gramatical. Só isso ela fazia. Suas idéias não eram ditas, escritas, nem desenhadas. Sua vida era assim. Na correria diária da cidade. No perengue do dia-a-dia.
Em tal redação que trabalhava, seus companheiros a tinham como a estranha e egocêntrica da revista. Permanecia muito tempo em silêncio, quase não participava das festas. Os colegas com quem sempre saía eram da redação do andar de cima. A redação da revista de música e cinema. Tinha alguns colegas na redação do andar de baixo, onde era a revista de filosofia. E trabalhar para essa revista foi uma história meio engraçada e revoltante pra ela.

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

E fez-se então a realidade.

Segurando o lápis como seu cigarro, a moça transmitia a ansiedade no seu cruzar de pernas. O movimento de bater no fim do cigarro para cair o tabaco queimado, aliviava levemente o fato gerador de tal tensão. Levava-o a boca em um momento em que ninguém vise. Isso a trazia a sensação de tarefa realizada. Puxar a fumaça, mesmo que ilusioriamente, despendia a sensação de calor e confortamento dentro do seu peito.
O movimento de digitar e depois encolher os dedos da mão como se descansasse o membro para pensar melhor no que estava fazendo a transportava para Paris. Cidade-Luz! O blasé em forma de sensação remetia o romantismo da cena. Se imaginava nesses dias frios, com aqueles casacos e cachecóis que só os parisienses e seus simpatizantes sabem usar com graça. Sentada à uma mesa do exterior do café Le Procope, sentia a brisa musicalizada tocando seus cabelos e rosto. Sentia-se ao lado de vários intelectuais que visitaram esse café, como Montesquie e La Fontaine. Olhando para o horizonte, via a torre Eiffel com o contraste do pôr-do-sol meio violeta.
Seu expresso chegou, na realidade, era só um copo plástico de 200ml com metade vazio de café. A fumaça tinha o doce aroma de requinte e liberdade, dando também um êxtase, como se vivesse na mesma época que Nietzsche, Schopenhauer e Kant.
Tossia. Se prendia aquela sensação que veio de dentro de si. Sentimento de solidão silenciosamente deliciosa. Fechava os olhos e se deixava levar pelo movimentos internos de seu corpo. Digitava às vezes sem parar, pausava só para arrumar o lápis na mão direita. Outras, simplesmente parava. No meio de uma frase, após uma vírgula ou até mesmo após um parágrafo.
Arrumava o cabelo constantemente na expectativa de que um belo francês a olharia com outros olhos. Enquanto na realidade, esperava somente o momento, que duraria pouco mais que segundos, a passagem de um de seus admiradores pela porta do seu departamento. E após essa passagem, ou melhor, o olhar do belo francês, ela sorriria sem motivos aparentes para a tela do notebook. Seus olhos brilhariam como uma televisão ligada no meio da madrugada.
Mantinha ainda o ar de 'nem ligo para o mundo'. Ia somente sentindo tudo a sua volta, valsando ao ritmo de tudo. É como se seu corpo fosse o Sol, e o resto, os astros. Tudo girando ao seu redor em um uníssono confuso de imagens e movimentos.
Poderia continuar naquela sucessão de sentimentos e sensações o dia todo. Preferia até, afinal era melhor do que a realidade. Mas seus afazeres a chamavam, como um bebê no meio da noite com a fralda toda molhada. Mas esse momento de silêncio, viajando em seus sonhos, já valeu por todo um dia.